O fim do tratamento do câncer de mama nem sempre encerra o medo de a doença voltar. Durante o Outubro Rosa, especialistas e pacientes chamam atenção para os desafios emocionais e físicos que podem permanecer após a quimioterapia e a radioterapia.
A psicóloga clínica Laís Mutuberria Vieira afirma que, enquanto familiares e amigos celebram a remissão e esperam a retomada da rotina, muitas mulheres ainda lidam com inseguranças e mudanças. “A última sessão de quimioterapia ou radioterapia pode marcar o fim de um tratamento, mas não o cuidado com essa mulher, que ainda precisa continuar”, diz.
Segundo Laís, o acompanhamento médico segue importante, assim como o apoio emocional, que deve respeitar o ritmo de cada paciente. Exames de rotina, dores ou outras alterações podem despertar o receio de reincidência. Ela também observa que algumas mulheres continuam usando medicação por até cinco anos e podem sentir fadiga e outros efeitos do tratamento.
As consequências podem incluir cicatrizes, perda ou reconstrução da mama e mudanças na sexualidade, na autoestima e na disposição para atividades diárias. Laís afirma que essas transformações podem afetar a forma como a mulher se reconhece e se relaciona com a intimidade.
Apoio durante e depois do tratamento
Renata Reis Pinto, médica mastologista e radiologista com atuação no Instituto Nacional de Câncer (Inca), afirma que o câncer de mama ainda é cercado por estigmas e pode ser visto como uma sentença de morte. Para ela, oferecer espaço para a paciente falar sobre suas preocupações é importante também para a evolução do tratamento.
Renata defende o atendimento multidisciplinar, com participação de assistente social para ajudar em questões como cuidados com os filhos e dificuldades relacionadas ao trabalho. Ela também destaca a importância da psico-oncologia para avaliar a intensidade do medo e a necessidade de medicação.
Josiane Fernandes, de 48 anos, moradora de Volta Redonda, no sul fluminense, descobriu um nódulo na mama esquerda no início de 2025. Em março daquele ano, confirmou o diagnóstico e iniciou o tratamento. A cirurgia, a quimioterapia e a imunoterapia duraram cerca de um ano e três meses. Durante esse período, ela entrou em depressão e precisou de tratamento.
Após o fim do tratamento, Josiane continua em acompanhamento médico. “O tratamento pode terminar, mas o medo nem sempre termina junto. Até hoje, numa consulta de rotina, num exame, eu entro em pânico. Parece que volta tudo o que eu vivi”, relata. Para ela, o cuidado deve continuar no pós-tratamento: “Existe vida depois do câncer, mas essa vida precisa ser reconstruída”.
Estimativa de casos
De acordo com a estimativa do Inca para 2026, o câncer de mama é o tumor mais incidente entre as mulheres, com 30% dos casos. Para cada ano do triênio de 2026 a 2028, são estimados 78.610 novos casos no Brasil, com risco de 71,57 casos a cada 100 mil mulheres.





